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Pensar o futuro: o mercado chinês

21.05.2020 • 10:32
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A edição de hoje é dedicada ao (imenso) mercado chinês que, nos últimos anos, tem merecido um forte investimento por parte da Marca Portugal e das empresas nacionais que na China têm procurado novas oportunidades de negócio e parcerias de futuro. Os chineses começam a viajar cada vez mais, sobretudo as novas gerações, mais tecnológicas, mais sedentas de descobrir o mundo.

No entanto, a crise provocada pelo novo coronavírus assolou o mundo e a China, contrariando uma linha de franco crescimento económico. Com resultados devastadores, à semelhança do que sucede pelo mundo.

O Coordenador da Equipa do Turismo de Portugal, Dr. Tiago Brito, ajuda-nos a compreender o mercado chinês e as suas especificidades, desenhando um retrato actual do país, do sector do Turismo, da operação e apontando linhas para o futuro. Sem perder a esperança.

Assista ainda à “Tourism Trade Talk”, organizada pelo Turismo de Portugal, em colaboração com NEST, e à brilhante apresentação do Dr. Tiago Brito acerca deste mercado.

Leia ainda a situação actualizada do mercado chinês no guia “COVID-19 – Mercados Externos”, (última actualização a 20 de Maio) publicado no portal Travel BI do Turismo de Portugal.

Texto da autoria do Coordenador da Equipa de Turismo de Portugal, I.P. – República Popular da China
Dr. Tiago Brito

A indústria do turismo outbound da República Popular da China (R.P.C) tem tido índices de crescimento impressionantes. Destaca-se o número de hóspedes e ainda as receitas por estes geradas nos países de destino. De acordo com a Organização Mundial do Turismo, quase 150 milhões de pessoas viajaram e pernoitaram fora do seu lugar de residência em 2018. Por outro lado, em termos absolutos, este é o país mais gastador do mundo em termos de despesas com viagens.
No caso de Portugal, as estatísticas mensais publicadas pelo INE refletem essa mesma realidade. Mais hóspedes e mais dormidas em Portugal. Crescimento consistente e de forma sustentada.
Este preâmbulo com a perspetiva global justifica a aposta por parte do Turismo de Portugal, I.P. em considerar este como um dos mercados estratégicos para o futuro. Um dos fatores prende-se naturalmente com as taxas de crescimento recorrentes do PIB chinês e o progressivo e exponencial aumento de rendimento disponível dos agregados familiares, principalmente nos grandes centros urbanos ou cidades tier 1 e, já se começa a verificar também, em cidades tier 2.
Em 2019, Portugal contou com 382.886 hóspedes oriundos da R.P.C, representando isso um aumento de 18,1% face ao ano anterior. Por outro lado, em termos de dormidas, contaram-se aproximadamente 602.000 o que traduz um aumento de 16% na procura.
Os indicadores de Janeiro foram auspiciosos. Um aumento de hóspedes superior a 60% face ao período homólogo do ano passado. No entanto, esta “explosão” deveu-se principalmente ao facto das férias do Ano Novo Chinês recaírem este ano na sua totalidade em Janeiro (24 a 31 de Janeiro), algo que não sucedia desde 2012, no ano do dragão. Geralmente o acréscimo de fluxos de turismo associados a este período festivo reflectem-se habitualmente em Fevereiro.
Assim que foi compreendida localmente a dimensão da propagação do Covid-19 e respectivo alcance, foi tomada a decisão por parte do Ministério da Cultura e Turismo chinês de impedir imediatamente a venda de novos pacotes turísticos para grupos, por parte de operadores turísticos locais. Esta decisão foi tomada entre 22 e 24 de Janeiro, numa altura em que se começava a tomar consciência da dimensão real do risco de propagação e das caraterísticas do vírus. Foi também nesta baliza temporal que se decretou o primeiro “lockdown” no território nacional, nomeadamente da cidade de Wuhan, uma das mais importantes do interior da China.
Essa proibição é válida para viagens de grupo organizadas, para o exterior ou domésticas interprovinciais e mantém-se vigente à data que escrevo este artigo, 23 de Abril.
Em Fevereiro, na China, de acordo com o South China Morning Post, um dos jornais de referência, foram cancelados, em média, 10.000 voos por dia. Um bilhete de avião entre Xangai e Chongqing (1400Kms de distância) chegou a custar menos do preço habitual de um cappuccino num popular estabelecimento de restauração (RMB 29 = EUR 3,75).
O partido comunista chinês tomou de imediato uma série de medidas transversais, económicas, financeiras, fiscais, sociais e sanitárias, ainda no início de Fevereiro, para proteger o tecido empresarial e os postos de trabalho, conter de forma eficaz a propagação da pandemia e impedir um maior grau de exposição noutras províncias do território e, também, noutros países. Posso atestar isto mesmo, no caso de Xangai, porque aí estive em Janeiro e durante praticamente todo o mês de Fevereiro. Vivi e assisti em primeira mão à evolução desta crise. A capacidade de organização, pelo menos no que a Xangai diz respeito, foi, a todos os títulos, notável. A definição oficial do Partido é de que este é um regime socialista de características chinesas, esta prerrogativa permite efetivamente que sejam reforçados os mecanismos de controlo, com músculo, desde a limitação ou dissuasão de mobilidade à proibição de acesso a espaços de todos os tipos. O facto de grande parte do território viver em Economia Digital, com recurso diário ao e-commerce e e-business de forma massiva, das compras gerais às refeições diárias, também facilitou o distanciamento e a adaptação da população urbana ao novo status quo.
Em Fevereiro, as ruas deste município com mais de 24 milhões de habitantes estavam vazias. Apesar de longínqua, na memória colectiva de uma boa parte da população, a pandemia SARS ainda estava bem presente e foi sobejamente mencionada para consciencializar a população do perigo até então desconhecido. De referir que a SARS teve um grau de letalidade percentual muito superior à Covid-19 sendo que esta última já ultrapassa a primeira largamente em termos absolutos. Os povos asiáticos têm sido mais fustigados por pandemias e o seu grau de experiência, reacção e adaptabilidade são superiores face ao ocidente em virtude disso. Referir ainda que a R.P.C. teve de lidar com um vírus que não conhecia, novo, ao contrário de alguns outros países que infelizmente desvalorizaram o alcance e a dimensão do perigo de contágio e perderam tempo precioso que custou vidas. E é com respeito pelas vidas perdidas cá e em todo o mundo que, ainda assim, não podemos deixar de enaltecer Portugal e o comportamento dos portugueses nesta crise.
A partir de meados de Março, uma parte dos locais de interesse turístico na China reabriu, com regras. Actualmente limita-se a abertura apenas a 30% da capacidade total dos espaços. Promovem-se visitas virtuais online a espaços igualmente. Os voos domésticos também resumiram apesar da oferta ainda ser largamente superior à procura. O primeiro grande teste à procura ocorreu durante os feriados Qingming. Existiu uma quebra grande, naturalmente, face ao período homólogo do ano passado. O próximo teste serão os primeiros 5 dias de Maio, com 3 feriados e um fim de semana pelo meio.
Estudos de mercado oficiais a que já tivemos acesso referem que uma boa parte dos chineses mantém a esperança e desejo em poder viajar ainda este ano. A preferência a curto-prazo será naturalmente o mercado doméstico pelo facto dos índices de confiança serem elevados em termos do controlo do Covid-19, do reforço das medidas sanitárias e por acesso a cuidados de saúde em casos de necessidade, no Império do Meio.
E este será um dos factores críticos de sucesso para os mercados receptores do Outbound chinês no momento da reabertura. Os países ou destinos que conseguirem conter, de forma eficaz, a propagação do vírus e que capitalizem essa confiança junto do governo central chinês, naturalmente, posicionar-se-ão de forma muito favorável para receberem fluxos consideráveis em virtude da corrente limitação da oferta à escala global.
A matriz será invariavelmente a mesma na maioria dos países. Primeiro retomará o turismo doméstico, no caso, na China Continental e Taiwan e ainda nas Regiões Administrativas e Especiais de Hong Kong e Macau. De seguida, serão os mercados externos de proximidade que assegurem as condições sanitárias e de segurança. O que auscultamos junto do Trade é que, na linha da frente, poderão estar destinos como Bali, Indonésia, Tailândia e ainda a Coreia do Sul. Depois disso abrirão destinos de longo curso, Europa e Américas.
Termino por referir que, neste momento e a esta data, tudo o que possamos por ora prever para o futuro passa por um conjunto ou projecto de intenções com condicionalismos de diferentes índoles. Quando retomarão de forma consistente as redes de conectividade aérea? Que tipo de controlo será feito à saída ou à entrada de viajantes nos países e o que acontece caso se verifiquem casos positivos de Covid-19? Quando é que cada país decide reabrir as fronteiras? No caso de espaços com livre circulação de pessoas como no espaço Schengen, a abertura de um país significa a abertura e a exposição de todos. Qual o grau de confiança das pessoas para, num anunciado cenário de crise económica e de aumento generalizado da taxa de desemprego em todos os países, usará uma parte do rendimento do agregado familiar para viajar?
Cada dia que passa trará novos dados, novas decisões, novas acções e esperemos mais certezas. Por agora, temos um capital apreciável de admiração global relativo ao nosso país e à forma como lidámos com a pandemia. Mantenhamos a esperança – #CantSkipHope – na ciência e na rápida descoberta de uma vacina ou medicamento que ajude o mundo a limitar este perigo de saúde pública e a salvar vidas.
Temos, porém, uma certeza. Portugal era o melhor destino antes do Covid-19 e continuará a ser também depois!

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