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18 de Maio

18.05.2020 • 11:18
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Um texto da autoria do Director do Mosteiro da Batalha, Património da Humanidade, Dr. Joaquim Ruivo. Hoje celebra-se o Dia Internacional dos Museus e também hoje os museus, monumentos, palácios e sítios arqueológicos reabrem as suas portas. Um prenúncio de esperança.

Texto da autoria do Director do Mosteiro de Santa Maria da Vitória – Mosteiro da Batalha, Dr. Joaquim Ruivo

“18 de maio
As grandes crises são cíclicas, embora, quando muito espaçadas, as gerações tendem a esquecer que já existiram e que possam um dia acontecer. Mas de algum modo, ainda bem que assim é. Para o bem e para o mal necessitamos vivenciar o presente e projetar o futuro sem o peso terrível de calamidades desconhecidas, que possam acontecer.
Esta crise, provocada pela necessidade de controlar a pandemia, obrigou-nos, por um lado, a confrontarmo-nos com as nossas fraquezas civilizacionais – numa dimensão que a todos atinge e a todos preocupa. Por outro lado, obriga-nos a um certo sentimento de humildade que deve contrastar com a jactância de uma humanidade que se convenceu que os progressos tecnológicos e científicos tudo ultrapassam, tudo podem resolver.
A dimensão global do fenómeno, por isso mesmo chamado de pandemia, atinge particularmente certos sectores económicos e sobretudo certas áreas culturais.
Para o turismo estes meses têm sido trágicos. Museus e monumentos fechados, fronteiras condicionadas, circuitos turísticos paralisados, companhias de transportes imobilizadas, restaurantes fechados, hotéis desertos…
A reabertura hoje, 18 de maio, no nosso país, dos museus, monumentos e palácios, deixa-nos um pouco alentados, empolgados mesmo, na perspetiva que mesmo lentamente a situação possa recompor-se e voltar a uma certa normalidade. Porque é urgente que tal aconteça.
Bem fomos apelando, entretanto, e como alternativa, às vantagens do virtual: visitas virtuais aos museus e monumentos, vídeo conferências, webminários… Mas temos consciência que nada pode substituir-se nem ser comparável à emoção do encontro presencial com a paisagem, com o monumento ou obra de arte. A experiência do encontro real fica a léguas do encontro virtual. Verdadeiramente o maior significado que experiência turística pode dar ao ser humano é o encontro, a descoberta e a emoção.
É muito comum dizer-se que uma “crise gera oportunidades”. É já um chavão. Mas a verdade é que a História demonstra isso mesmo.
No caso particular do Mosteiro da Batalha, até ao ano passado, dos cerca de meio milhão de visitantes, “só” cerca de 125 mil eram portugueses. Embora desde há muito tenha sido dada prioridade à dinâmica do encontro com o público nacional, sobretudo público escolar, sempre continuamos a constatar que os portugueses, naturalmente por razões culturais, visitam pouco os nossos monumentos e museus. Há um déficite de fruição cultural, bem notória no número de visitantes nacionais aos “seus” monumentos e museus, que é imperativo inverter. E este lento desconfinamento, depois de uma reclusão forçada, pode ser desde já oportunidade para ansiar a visita e revisita ao nosso património. O que temos feito tão bem, a unidade que demonstramos no combate à pandemia, tem que demonstrar-se também na forma como nos identificamos com a nossa cultura, com a poderemos viver e usufruir mais intensamente.
Depois, porque as pedras construídas e as obras de arte só têm significado e sentido(s) na sua relação com o ser humano, com as pessoas. Catedrais, castelos, museus, nada significam sem as “pedras vivas”, que somos nós.
Finalmente, esta crise pode ajudar a certos equilíbrios. Nos dois últimos Fóruns Internacionais da UNESCO em que participámos, sobre a gestão de sítios e monumentos património da Humanidade, o debate tem-se centralizado em parte nos sítios e monumentos que já necessitam controlar o fluxo exagerado de visitantes e aqueles cuja gestão ainda faz apelo a um maior número de visitantes.
Alguns centros históricos e monumentos estão já forçados a uma visível degradação, também da qualidade de vida dos residentes, por excesso de visitantes. Outros, em contrapartida, permanecem nas franjas dos circuitos turísticos, ansiando por mais divulgação e por mais visitantes.
Neste novo ciclo das nossas vidas, marcado pela reação à pandemia, necessitamos reequacionar também estes fluxos turísticos, reorientando-os e equilibrando-os. Esta também pode ser a oportunidade de promover os circuitos ainda marginais e aliviar decisivamente os que estão sobrelotados e com sinais de degradação. Oportunidade para reforçar o conceito de sustentabilidade, tão citado, mas tão esquecido.
Desde os epidemiologistas, passando pelas autoridades de saúde e acabando no cidadão comum, todos “navegamos à vista”. Como o fizeram consecutivamente no séc. XIV e XV os navegadores portugueses, muito deles anónimos, que depois permitiram as grandes descobertas de Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e Cristóvão Colombo e tantos outros…
Uso obrigatório de máscara, higienização sistemáticas das pessoas, equipamentos e espaços, distanciamento social, controlo de fluxos de visita, marcações prévias de visitas, espaços com números limitados de visitantes, transportes com menor número de utentes, tudo constrangimentos com que teremos que conviver, não sabemos por quanto tempo, mas que a esperança em melhores dias nos leva a ponderar e a aceitar.
Neste dia 18 de maio – também Dia Internacional dos Museus – a reabertura dos monumentos, museus e palácios é mais do que meramente comemorativa ou simbólica. Este dia traz consigo o renascer da esperança, da vontade de viver “normalmente”, sabendo que poderemos voltar a viajar, a visitar e a emocionarmo-nos.
Embora “naveguemos à vista”, acreditamos sinceramente que grandes descobertas aí virão.
Sabemos, é claro, que o mundo nunca mais será o mesmo.”

Mosteiro de Santa Maria da Vitória – Mosteiro da Batalha
Mosteiro de Santa Maria da Vitória – Mosteiro da Batalha
Mosteiro de Santa Maria da Vitória – Mosteiro da Batalha

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