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Pensar o futuro: os países nórdicos

14.05.2020 • 12:11
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A edição de hoje é dedicada aos mercados nórdicos. Analisamos a situação actual nos países escandinavos, bem como a forma como estão, lentamente, a desconfinar e a relaxar as medidas de contenção implementadas. A Suécia tem sido notícia em todo o mundo pela abordagem contra-corrente no combate ao novo coronavírus, apostando na designada “imunidade de grupo”. O denominador comum é a incógnita em relação ao futuro e o impacto brutal nas respectivas economias nacionais.

Leia o elucidativo texto do Delegado do Turismo de Portugal nos mercados nórdicos, Stig Kaspersen, um guião fundamental que nos ajuda a compreender a dura realidade que o sector do Turismo está a atravessar, lutando literalmente pela sua sobrevivência. No entanto, acredita que o desejo de viajar não irá esmorecer nestes mercados. Haverá, certamente, uma mudança de paradigma nas viagens, no sentido de uma maior sustentabilidade, e nos comportamentos dos consumidores.

Portugal continua bem posicionado, sendo considerado nos mercados nórdicos como um destino seguro que se destaca pela qualidade da oferta turística e pela consciência ecológica e ambiental, um factor determinante para os consumidores nórdicos.

Assista à Tourism Trade Talk dedicada aos mercados nórdicos e que contou com a paticipação de Stig Kaspersen, Delegado do Turismo de Portugal nos Países Nórdicos.

Leia ainda a situação actualizada dos mercados nórdicos no guia “COVID-19 – Mercados Externos”, (última actualização a 13 de Maio) publicado no portal Travel BI do Turismo de Portugal.

COVID-19 e os Países Nórdicos
Um texto da autoria do Delegado do Turismo de Portugal nos Países Nórdicos,
Stig Kaspersen


O ramo de viagens nos Países Nórdicos nasceu nos anos 50, quando a SAS, a Finnair e pioneiros como Simon Spies, Ejlif Krogager e Bengt Bengtsson fundaram companhias como Ving Resor, Aurinkomatkat, Spies Rejser, Tjaereborg e Fritidsresor. Hoje em dia as companhias Ving Resor, Spies e Tjaereborg pertencem ao mesmo grupo após serem salvas de um colapso em conjunto com os seus antigos donos da Thomas Cook, dando origem ao grupo Nordic Leisure Travel. A companhia Aurinkomaktak, ainda se encontra no mercado e a companhia Fritidsresor pertence agora à TUI.

Desta forma, a indústria de viagens dos Países Nórdicos tem sofrido várias alterações nos últimos 50 anos. Algumas companhias declaram falência, outras foram vendidas ou fundiram-se, e muitas companhias novas foram fundadas. No entanto, os consumidores dos Países Nórdicos tiveram sempre o privilégio de escolher livremente entre vários operadores turísticos e companhias aéreas de grande dimensão, solidez e de grande fiabilidade.
Esta indústria, já experienciou várias crises no passado: 09/11, nuvens de cinza provenientes de uma ilha vulcânica na Islândia, doenças como a gripe das aves, SARS e Ébola, ataques terroristas e desastres naturais. Algumas destas crises afetaram gravemente os operadores turísticos e as companhias aéreas. Períodos como estes com vendas fracas e com voos cancelados nunca são agradáveis, mas nenhuma companhia entrou em falência apenas devido a estes incidentes.

A crise do COVID-19 criou, repentinamente, uma situação que a indústria de viagens nunca tinha imaginado acontecer. Literalmente, de um dia para o outro, não só as vendas estancaram completamente, como os operadores turísticos e as companhias aéreas tiveram de trazer para casa os seus clientes e – em termos financeiros ainda pior – cancelar e reembolsar um número enorme de reservas.
O mercado alterou-se de um dia para o outro; sem vendas, sem receitas, sem negócios e apenas uma quantidade inesperada de despesas e reembolsos.
A indústria de viagens vê-se agora, de repente, a lutar pela sua sobrevivência, desde pequenas a grandes empresas, com apenas poucas exceções. As sociedades encerraram (sendo a Suécia uma exceção) e muitos outros negócios fecharam portas ou minimizaram as suas atividades. Dado que, muitos destes outros negócios são vitais para a economia dos Países Nórdicos, os quatro governos nórdicos rapidamente tomaram a decisão de ajudar as companhias. Todos os países financiaram entre 50% a 80% os salários dos trabalhadores em lay off, em alguns casos custos fixos, ou parte deles, estão a ser pagos pelos governos, e o pagamento de impostos foi legalmente adiado.
No entanto, mesmo com estes apoios, quase todas as companhias do sector turístico estão a ser severamente afetadas. Entre 80% a 95% dos trabalhadores estão em lay off e o principal foco nos tempos que correm, é o de evitar reembolsos de pacotes turísticos pré-pagos. Provavelmente, apenas as companhias com um elevado capital financeiro e uma gestão adequada irão ser capazes de sobreviver a esta crise, sendo que os trabalhadores estão profundamente preocupados com o seu futuro.

Podemos ver o seguinte exemplo:
A Sunclass Airlines é uma companhia aérea Dinamarquesa/Escandinava com 1200 trabalhadores e 11 aviões. Um total de 95% da sua estrutura de trabalhadores está em regime lay off, mas mesmo com todo o apoio da Dinamarca, e em parte dos governos da Suécia e Noruega, a companhia enfrenta um défice semanal de 1,5 milhões de euros. Um dos maiores donos da Sunclass, o empresário norueguês Petter Stordalen, é também dono de uma das maiores cadeias hoteleiras nórdicas, que está neste momento, a perder cerca de 22 milhões de euros por mês. Em outras palavras, é só uma questão de tempo até que vá à falência se os governos nórdicos não agirem de forma a impedi-lo.
As companhias Ving, Spies Rejser e Tjareborg pertencem todas ao grupo do Petter Stordalen. Norwegian está numa situação ainda pior e acaba de abrir falência na Finlândia, Dinamarca e Suécia. A Airtours, Bravo Tours, Solresor, TUI Nordic, Primo Tours, Aarhus Charter, Apollo e muitas outras estão em sérios problemas.

A questão que se coloca é o que vai acontecer agora?
A única resposta correta é a de que ninguém sabe.
No entanto, estou bastante convencido que a necessidade, interesse e vontade de viajar irá voltar. Apesar desta situação única, todas as experiências passadas dizem-nos que a memória dos consumidores é extremamente curta. Temos visto isto em quase todos os casos acima mencionados.
Dito isto, também estou convencido que novos hábitos e uma alteração de comportamentos irá advir desta crise da corona. A perceção de que o número de viagens continuará a crescer da mesma forma como aconteceu após a segunda guerra mundial, deve ser questionada. Penso que irá demorar bastante tempo, até que a indústria atinja os valores do ano passado.
Viajantes em negócio (business travellers) irão receber diretivas dos seus superiores, para ficaram em casa e utilizarem ferramentas tais como o Zoom, TEAMS ou Skype para as suas reuniões. Os turistas de lazer irão estar relutantes para viajar para destinos longínquos, e quando o fizeram, a segurança irá ser um fator muito mais importante do que a própria vontade de descobrir algo novo ou ver o nunca antes visto.
Os reformados têm sido fundamentais para as vendas dos operadores turísticos e têm em particular expressão na época baixa. Mas será que a sua vontade de voltar a viajar retomará o seu pleno? Não acredito nisso, pelo menos no que toca a viagens transoceânicas.
Na área de golfe pode ser necessário introduzir um maior intervalo entra as saídas, e pode ser impossível juntar equipas de jogadores com outros jogadores que não se conhecem.
Relativamente às previsões acima mencionadas, espera-se que sejam apenas temporárias, mas se, e quando, estas forem sentidas pelo sector, irão ser problemáticas para a estrutura da indústria turística nos Países Nórdicos. A TAP e a SAS precisam de consumidores de todos os segmentos, os operadores charter provavelmente vão ter maiores dificuldades em vender toda a lotação durante a época baixa, o que por sua vez poderá implicar um menor capacidade aérea nos mercados.

Esta situação, pode conduzir a que menos companhias charter tenham vontade de correr riscos de forma a garantir um voo com total capacidade, significando assim, que iremos ver um número maior de sub-charters e mais voos charter partilhados, com vários operadores turísticos envolvidos, de forma a partilhar o risco. Pacotes dinâmicos (dynamic packaging) irão ter uma crescente importância e voos low cost (que se podem tornar mais caros) irão aumentar. Visto que a Norwegian pode não voltar ao mercado da mesma forma que teve presente nos últimos 10 anos, irá haver espaço de manobra para companhias como a Ryanair e a Easyjet.

A questão a seguir é: O que podemos fazer?
Em primeiro lugar, tenho a dizer que Portugal encontra-se numa posição relativamente favorável. O país tem demonstrado que é capaz de lidar com crises como esta de uma forma muito mais eficiente que a maioria dos países europeus. Portugal é conhecido pelo facto de ser um país bastante seguro e igualmente importante na Europa e na União Europeia. A qualidade do sector turístico é elevada, com um número extenso de hotéis de 4 e 5 estrelas, e com menos alojamento “barato” comparado com muitos outros destinos. A elevada qualidade permite uma maior segurança e maiores possibilidades de manter uma unidade limpa e livre de vírus. No que toca a questões ambientais, que são importantes para a Região Nórdica, Portugal é bastante avançado.

Como podemos explorar estes pontos positivos que advêm desta crise?
Em primeiro lugar, temos de esperar e ver quem é que se vai manter no mercado quando ambos, os Países Nórdicos e Portugal, abram de forma a permitir viagens novamente. Após termos essa informação, teremos como tarefa identificar quais as melhores alianças e parcerias, e construir tudo a partir daí. A nossa posição é forte. Temos já excelentes relações com quase todos os players no mercado e tanto Portugal, como as suas regiões e ARPT´S, Turismo de Portugal e em particular todos os hotéis, agentes, campos de golf, atracões, companhias de aluguer de automóveis já estão conhecidos e respeitados como parceiros fiáveis e eficientes.
O future está aí e, juntos, temos a oportunidade única de criar, de melhor forma possível, um sector de turismo sustentável.

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