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Pensar o futuro: o mercado belga

12.05.2020 • 10:50
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Na edição de hoje damos exclusivo destaque ao mercado belga, sobejamente conhecido em Portugal como um mercado que aprecia, especialmente, a gastronomia refinada, os vinhos de excelência e os produtos de qualidade ímpar.
A Bélgica foi duramente atingida pela pandemia causada pelo novo coronavírus, tendo a tragédia humana sido 8 vezes mais grave do que em Portugal, com base em totais populacionais muito análogos. Esta semana a Bélgica começa, paulatinamente, a desconfinar e a entrar na designada nova normalidade.
Partilhamos o texto da autoria do Delegado do Turismo de Portugal na Bélgica e nos Países Baixos, Dr. João Rodeia. Uma reflexão enriquecedora que nos devolve a esperança no futuro.

Artigo de opinião por João Rodeia, Coordenador da Equipa de Turismo na Bélgica e Países Baixos

Nota introdutória: Releio atentamente a crónica que preparei no passado dia 20 de abril relativa à Bélgica e Países Baixos e consequências da pandemia atual, cuja publicação não foi possível anteriormente. E penso: 4 semanas de tempo pode ser um momento como pode ser uma eternidade. Se há 4 semanas o cenário era extremamente sombrio, há agora um princípio de uma luz ao fundo do túnel! Para que este pensamento nos ajude a sermos positivos e a enfrentar com segurança e determinação os desafios próximos, resolvemos manter a publicação do texto inicial. Para que possamos analisar no futuro a influência do tempo nas nossas decisões e criarmos um turismo português e um mundo ainda melhores. Boa leitura! João.

Pouco Algum (!) optimismo nos países do céu cinzento

No Norte da Europa dominam, como todos sabemos, os dias cinzentos, as manhãs frias, as tardes à chuva, as ventanias constantes, as noites dentro de casa no conforto de ambientes artificialmente aquecidos.

Essa é a razão principal para a necessidade, criada nas últimas décadas, de períodos de férias ao sol, com luz natural, ao ar livre. Essa necessidade tornou-se incontornável, básica, e é vista como imprescindível para o ‘equilíbrio mental’ por parte dos belgas e dos holandeses.

Tem sido assim há já várias gerações e o transporte aéreo acessível democratizou de tal modo as viagens que estas populações viajam variadas vezes ao ano, com amigos, com colegas, com família, sozinhos. Mas acima de tudo, estar em viagem tornou-se muito ‘cool’ e um modo de afirmação social: quanto mais viajas, mais aceitação social tens, mais tens razões para partilhar momentos únicos com os amigos nas redes sociais e mais atenção recebes. E isso torna os dias cinzentos menos cinzentos.

Em 2020, tudo muda. O céu até tem estado pouco cinzento, o ambiente agradece a paragem de grande parte da atividade económica, o congestionamento das autoestradas deu lugar ao híper congestionamento das ligações eletrónicas. Mas tudo muda, porque é suposto ficar-se em casa.

No Norte da Europa isso são tudo menos boas notícias. Os belgas e os holandeses não sabem e não querem prescindir de dias de ar livre, de sol, de luz. Pelo que, mais cedo ou mais tarde, todos sairão das suas casas para melhores dias: better days ahead!

Este ano, logo que for possível, os belgas e os holandeses vão sair em massa das suas varandas, dos seus jardins, dos seus terraços e vão invadir os espaços públicos e rever os amigos, os familiares, os colegas. Vão instalar-se naquela casa da família no interior do país ou no apartamento na costa. Vão encher o carro de coisas e vão querer recuperar o tempo “perdido”. Mas vão, mesmo que as fronteiras estejam abertas, procurar destinos próximos, acessíveis de automóvel e vão adiar para mais tarde os destinos cujo acesso implique viagens de avião. Porque além das incertezas quanto à abertura de fronteiras, há a grande incerteza da capacidade financeira das companhias aéreas. Não esqueçamos também que a relação qualidade-preço é importante nestes mercados e que, em especial nos Países Baixos, se atribui uma atenção acrescida à componente preço. Ninguém vai portanto querer ‘investir’ dinheiro em empresas que poderão falir antes de se utilizar o produto adquirido… Foram criados vouchers para motivar os turistas a adiar as suas férias em vez de cancelá-las e, desse modo, dar algum oxigénio ao mundo do turismo, mas ninguém sabe quantas empresas essa medida salvará.

Antevejo, portanto, dias difíceis para o turismo belga e holandês em Portugal em 2020. O país é apetecido, querido, solarengo, acolhedor. Mas está a uma distância superior relativamente aos anos anteriores. E para lá chegar, é necessário atravessar várias fronteiras, pagar muitas portagens, investir bastante em gasolina e em dias de férias.

Aproveitemos pois o tempo disponível neste momento para repensar o que temos e inovar para o que ainda não existe. Há tempo para avançar com melhorias na oferta, nas infraestruturas, formar pessoal, renegociar alguns contratos, tornar-se mais diferenciado, para que, quando os habitantes dos países do céu cinzento voltarem ao nosso país, continuemos a recebê-los de braços abertos!

Portugal é um país de diversidade concentrada, com um povo extremamente acolhedor e um dos destinos europeus com melhor relação qualidade-preço. E portanto os belgas e os holandeses vão, sem sombra de dúvida, voltar! Mas isso vai acontecer muito gradualmente, à medida que o consumidor ganhe confiança e regresse ao sul da Europa, em força, o que receio não acontecerá antes de 2021.

Leia ainda a situação actualizada do mercado belga no guia “COVID-19 – Mercados Externos”, (última actualização a 11 de Maio) publicado no portal Travel BI do Turismo de Portugal.

Reveja a brilhante apresentação do Delegado do Turismo de Portugal na Bélgica e Países Baixos, Dr. João Rodeia, na “Tourism Trade Talk” da passada sexta-feira, promovido pelo NEST.

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