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Pensar o futuro: o mercado italiano

05.05.2020 • 10:50
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A edição de hoje é dedicada a Itália. Mais do que uma análise da importância deste mercado para a Portugal, uma homenagem ao génio italiano, ao brilhantismo das suas criações e à força notável de um povo que se viu a braços com uma crise sanitária sem precedentes. Mas que se reergue aos poucos das cinzas, começando a sair de uma longa quarentena. E vemos os avós, com máscaras, a abraçar os seus netos. É este abraço que damos hoje a Itália!

Leia o testemunho do Delegado do Turismo de Portugal em Itália, Dr. Marcelo Rebanda, traçando um retrato do panorama do turismo em Itália, muito direccionado para o turismo interno, e apontando os desafios para o futuro e para os novos paradigmas que se começam a desenhar.

Assista ainda à apresentação deste mercado na “Tourism Trade Talk” pelo Dr. Marcelo Rebanda. Um contributo fundamental para compreender o comportamento do mercado.

Leia a situação actualizada do mercado italiano no guia “COVID-19 – Mercados Externos”, publicado no portal Travel BI do Turismo de Portugal.

Notícias de Itália, em tempos de emergência…
“Estímulo às férias em Itália” . “Um tax credit para o turismo, algo que alguém chamou já de bónus férias, em Itália, evidentemente”. São frases, respetivamente, do Primeiro-ministro e do Ministro do Património Cultural e do Turismo do Governo italiano, que a imprensa fornece no momento que escrevemos este texto. A estas afirmações, podemos juntar as recomendações do Ministério dos Negócios Estrangeiros transalpino para os seus concidadãos no que respeita a viagens ao estrangeiro; as restrições no tráfego aéreo entre Portugal e Itália; o manifesto para o turismo italiano denominado #ripartiamodallitalia promovido pelas principais associações do setor conjuntamente com grandes operadores do país; a nova programação de operadores importantes com títulos como “Viajar em Itália” ou “”Projeto extraordinário para a Itália”; frases dos mesmos operadores como “Esqueçamos as viagens ao estrangeiro, será como a Itália dos anos 50” ; os estímulos ao turismo interno com novos portais como o “iorestoinitalia.org” ; a nova fórmula booking “Bookingforitaly” ; os pedidos de bónus fiscais, apelidados já de “Bónus para o turismo patriótico”, a conceder às famílias italianas que passem férias no seu país; as sondagens que divulgam resultados para um verão de 2020 onde a maioria dos italianos acha que poderá voltar a viajar, mas “não se poderá ir muito longe”, enquanto que parte dos inquiridos diz que “nem consegue imaginar viajar” e outra acha “que não vai viajar de novo tão cedo”. Tudo isto num país que prevê o seu PIB a descer na ordem 9% e que atinge praticamente os 190.000 contagiados pelo vírus Covid-19, com o foco maior na sua região mais rica, a Lombardia, motor económico do país, onde nasceu uma emergência sanitária sem memória, que não dá tréguas, e que se espalhou ao inteiro país, paralisando-o há quase dois meses.
Este não é, sem dúvida, o melhor cenário para quem quer promover um destino estrangeiro em Itália. Este não é, sem dúvida, o melhor cenário para o investimento num mercado que não só está paralisado como pensa, a curto prazo, fechar-se sobre si próprio.
Mas este é também, e acima de tudo, um mercado que cresceu de forma constante para Portugal nos últimos anos, fechando 2019 com um registo no nosso país de mais de 700 mil hóspedes, 1 milhão e 685 mil dormidas e 472 milhões de Euros de receitas turísticas, contribuindo o Centro de Portugal com 102 mil dos hóspedes e 170 mil das dormidas.
E Itália preparava-se, em 2020, para continuar a dar bons números ao nosso país, como atesta o mês de janeiro, que nos indicava um crescimento, relativo ao mesmo período de 2019, de 8% nos hóspedes, 5% nas dormidas e 22% nas receitas.
Ora, não sabendo quando e como vamos todos sair desta emergência sanitária, interessa estar atento ao momento e preparar, ou ir preparando, o pós-crise e, recuperada a confiança, esse termo que entrou, definitivamente, no vocabulário da indústria turística, avaliar de uma forma pragamática, as condições do destino Centro de Portugal para continuar a atrair o turista italiano, com o que vamos já sabendo, no que serão, com grande probabilidade, as suas novas exigências.
E estas, transmitem-nos, desde logo, o retrato de um consumidor com uma maior percepção do risco e consciente da importância de ter de sair do seu país devidamente segurado, com uma segurança que estará para lá do grau de criminalidade do seu destino, mas centrada na vertente sanitária, que a nosso ver abrirá um novo paradigma no setor turístico, e que estará focalizada nas condições de uma necessidade de assistência médica, e ainda na urgência de um eventual repatriamento.
Assiste-se ainda a uma vaga de tudo o que é percecionado como bom para a qualidade de vida da pessoa, para o seu bem-estar, pensando em termas, agro-turismo, experiências locais, natureza. Teremos também expectativas mais altas de padrões de higiene, seja do ambiente em geral, seja dos próprios quartos das unidades de alojamento, cuja limpeza e sanificação tenderá a ser cada vez mais assídua ( onde o selo “Clean & Safe”, acabado de criar pelo Turismo de Portugal, terá um grande significado) conjecturando-se também uma aceleração de soluções que envolvam “cashless e contactless”. A propósito, os preços. As previsões fazem antever um período, imediato ao da crise, onde não haverá grande capacidade de gastos.
São estes alguns dos novos desafios e paradigmas que, paulatinamente, vamos tendo nota no que diz respeito à novas exigências de consumo do turista italiano, os quais, se por um lado nos deixam expectantes pelas eventuais alterações a provocar nos padrões existentes, nos deixam também tranquilos, enquanto povo habituado a desafios e à sua superação.
E cremos que todos o país, e focalizando-nos então na região “Coração de Portugal” , terá todas as condições e saberá responder aos novos desafios, porque o coração do turista italiano já conhece bem como o elevou em Fátima e o prencheu em Tomar, Alcobaça e Batalha, como o acalmou nas Aldeias do Xisto, curou no Luso e na Curia, ou o passeou em Aveiro, maravilhou na Serra da Estrela, e encheu de conhecimento em Coimbra, e que por todos os cantos da região saborou uma gastronomia e vinhos de excelência. E o mesmo italiano, que nos últimos anos tem visitado a região, que a descobriu tão próxima de si enquanto pessoa, que assim a transmistiu aos seu amigos e familiares, não a esquecerá e quererá voltar tão rapidamente quanto possível, porque além do mais tem já a percecção de uma região, de um país, que sabe acolher como ninguém e que saber acolher é também adaptar-se aos novos tempos, aos novos desafios, aos desafios colocados por quem o visitou e quererá continuar a visitar, não duvidemos.”

Marcelo Rebanda
24 de Abril de 2020

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